Por que o vinho Beaujolais encanta amantes do vinho no mundo todo?
O vinho Beaujolais é um daqueles rótulos que conquistam logo no primeiro gole. Leve, aromático e fácil de beber, ele tem uma história rica, uma região cheia de identidade e uma uva que foge do óbvio. Ao longo dos anos, Beaujolais deixou de ser visto apenas como um vinho jovem e descomplicado para ganhar espaço entre apreciadores que buscam tipicidade, frescor e expressão de terroir.
Neste guia completo, você vai entender o que é o vinho Beaujolais, de onde ele vem, quais são seus estilos, como funcionam as apelações, o papel da uva gamay e, claro, como harmonizar no dia a dia. Um conteúdo pensado para quem quer aprender, escolher melhor e explorar a categoria com mais confiança.
O que é Beaujolais?
É uma região vinícola localizada no Leste da França, famosa principalmente por seus vinhos tintos elaborados com a uva gamay. Quando falamos em Beaujolais, estamos nos referindo tanto à região quanto aos vinhos produzidos ali, que seguem regras bem definidas de produção e origem.
O estilo mais conhecido é leve, fresco, com taninos baixos e aromas intensos de frutas vermelhas frescas e floral. Mas Beaujolais vai muito além disso, oferecendo vinhos com diferentes níveis de complexidade, estrutura e potencial de guarda.
Região de Beaujolais
A região de Beaujolais se estende por 55 quilômetros, começando ao sul de Mâcon e indo até os arredores de Lyon. Essa posição geográfica favoreceu o crescimento da viticultura desde a Antiguidade, já que Lyon sempre foi um grande centro comercial.
Beaujolais é dividida, de forma geral, em duas áreas.
- Sul da região: solos mais argilosos e calcários, clima um pouco mais quente. Aqui se concentram muitos vinhos Beaujolais e Beaujolais Nouveau.
- Norte da região: solos graníticos e xistosos, encostas mais íngremes e clima ligeiramente mais fresco. É onde nascem os crus de Beaujolais.
Essa diferença de solos e relevo explica por que os vinhos do norte costumam ser mais estruturados e complexos.
Por que os vinhos são tão conhecidos?
Os vinhos de Beaujolais ganharam fama mundial por uma combinação de fatores históricos, culturais e comerciais.
O estilo leve e acessível ajudou a popularizar a região entre diferentes perfis de consumidores, enquanto o perfil aromático, marcado por frutas vermelhas e frescor, costuma agradar já no primeiro contato. Outro ponto que contribuiu para essa visibilidade foi o preço competitivo em relação a outras regiões francesas, o que facilitou a entrada do Beaujolais em cartas de vinho, lojas e restaurantes ao redor do mundo. E, claro, tradição do lançamento anual do Beaujolais Nouveau transformou o vinho em um evento global, reforçando o nome da região ano após ano.
Além disso, nos últimos anos, outro fator ganhou destaque: o movimento de produtores focados em qualidade, viticultura sustentável e mínima intervenção. Isso reposicionou Beaujolais como uma região interessante também para consumidores mais experientes.
Origem e história do vinho Beaujolais
A atividade vitivinícola em Beaujolais começou com os romanos ainda no primeiro século, graças à rota de comércio que o Rio Saône, que banha a região, proporcionava.
O fato determinante para o desenvolvimento da identidade dos vinhos Beaujolais ocorreu apenas no século 14, quando o Duque Filipe II proibiu o cultivo da uva gamay na região da Borgonha. Segundo ele, tratava-se de uma variedade incapaz de produzir vinhos elegantes, como os de pinot noir.
Isso fez com que o cultivo da gamay crescesse em Beaujolais, local onde se adaptou bem às condições climáticas e ao solo granítico. Hoje, 99% dos rótulos da região são feitos a partir dessa uva.

A principal uva cultivada na região de Beaujolais é a Gamay.
No século 19, com o desenvolvimento da ferrovia que ligava o restante da França a Paris, a procura pelos vinhos de Beaujolais começou a aumentar, pois eram bebidas leves e frutadas.
Seu segundo pico de popularidade viria a acontecer na década de 1980, graças à variedade conhecida como vinho Beaujolais Nouveau. Chamada de Vin de Primeur, essa subvariedade é vinificada, engarrafada e vendida no mesmo ano de sua colheita.
Todos os anos desde então, na terceira quarta-feira de novembro, ocorre na região uma festividade para a abertura das garrafas e prova dos vinhos durante seu melhor período de consumo.
O aumento na demanda, porém, também causou efeitos negativos: muitas vinícolas começaram a produzir vinhos de menor qualidade, resultando em desinteresse por parte do público. Na safra de 2001, por exemplo, mais de 1 milhão de garrafas foram destruídas pela falta de procura.
Hoje, Beaujolais vive uma fase de valorização. Produtores investem em qualidade, identidade de terroir e vinhos mais expressivos, o que vem mudando a percepção do público e da crítica especializada.
A casta gamay
Gamay é a uva que define o vinho Beaujolais. Ela é responsável pelo perfil aromático vibrante e pela textura macia dos rótulos da região.
Principais características da gamay são:
- Casca fina
- Alta acidez natural
- Aromas intensos de frutas vermelhas
- Taninos suaves
Nos solos graníticos do norte da região, a gamay ganha mais estrutura, mineralidade e potencial de guarda.
Época da colheita
A colheita em Beaujolais ocorre, em geral, entre setembro e início de outubro. O momento exato varia conforme o clima de cada safra.
Para o Beaujolais Nouveau, a colheita costuma ser antecipada. O objetivo é preservar frescor, aromas primários e acidez elevada. Somado ao método de vinificação (como a maceração/fermentação carbônica), isso ajuda a explicar os aromas característicos de banana e tutti-frutti.
Já para os crus, muitos produtores aguardam maior maturação fenólica, buscando vinhos mais profundos e equilibrados.
Apelação de Origem Controlada
Beaujolais possui um sistema de apelações que organiza os vinhos de acordo com origem, regras de produção e estilo.
Desde 1936, a região de Beaujolais possui diversas AOC (Apelação de Origem Controlada). Além dos vinhos Beaujolais AOC, há subdivisões, como Beaujolais Villages, Cru Beaujolais, Beaujolais Blanc e Beaujolais Rosé.
Para serem considerados Beaujolais AOC, além de serem cultivados e vinificados na região, os vinhos devem ter, no mínimo, 10% de graduação alcoólica, produção máxima de 60 hl/ha e chaptalização máxima de 3 g/L.
Beaujolais AOC
A apelação Beaujolais representa a base da pirâmide. São vinhos leves, diretos e focados na fruta.
Eles costumam ser consumidos jovens e funcionam bem como vinhos do dia a dia, sendo uma boa porta de entrada para quem está começando a explorar a região.
Esse perfil de consumo rápido também ajuda a entender por que é mais difícil encontrar o Beaujolais Nouveau fora da França: como ele é feito para ser bebido logo após o lançamento, muitas garrafas ficam no mercado local. E, quando aparece em outros países, nem sempre chega tão “jovem” quanto o ideal, por depender de logística, importação e tempo de prateleira.
Beaujolais Nouveau
É um tipo de vinho com fermentação mais rápida, com o objetivo de que esteja pronto para o consumo no mesmo ano da colheita das uvas. A data oficial de lançamento das safras anuais é a terceira quarta-feira de novembro, quando o vinho “é liberado” para venda e consumo, marcando um momento aguardado por fãs no mundo todo. Em muitos lugares, essa liberação vira celebração: em Paris, por exemplo, há eventos temáticos que combinam degustação e festa, como o cruzeiro no Rio Sena promovido pela Vedettes du Pont Neuf, com ambiente musical e prova de diferentes rótulos de Beaujolais Nouveau a bordo.
A data limite para a venda do vinho é dia 31 de agosto do ano seguinte à colheita, já que, após esse período, a bebida não está mais em suas melhores condições de consumo.
Cerca de 50% da produção de vinhos Beaujolais é destinada aos Nouveaus, graças à procura mundial por essa variedade.

Beaujolais Nouveau: vinho de fermentação rápida: pronto no mesmo ano da colheita.
Beaujolais Villages
Beaujolais Villages (ou Village Beaujolais) vem de áreas mais bem delimitadas e costuma apresentar maior concentração e profundidade do que o exemplar básico.
Aqui já é possível encontrar vinhos mais gastronômicos, com boa estrutura e maior complexidade aromática, mantendo o frescor característico da região.
Os 10 Crus de Beaujolais
Os crus são pequenas regiões dentro de Beaujolais que reúnem o terroir mais premium para a elaboração dos vinhos. Por isso, representam o nível mais elevado de qualidade da região e ajudam a mostrar, na prática, como solo e microclima influenciam diretamente o estilo do vinho.
Diferentemente das apelações Beaujolais e Beaujolais Villages, os crus não trazem a palavra “Beaujolais” no rótulo. O nome da vila já indica origem e identidade.
Localizados majoritariamente no norte da região, os crus se desenvolvem em solos graníticos e em encostas bem drenadas. Isso favorece vinhos mais estruturados, complexos e, em muitos casos, com capacidade de envelhecimento. Apesar de todos serem elaborados com a uva gamay, cada cru apresenta um perfil sensorial próprio.
1. Saint-Amour
Saint-Amour é o cru mais ao norte de Beaujolais e um dos mais conhecidos por expressar com clareza o perfil da casta Gamay, com aromáticos bem marcados. Seus vinhos costumam apresentar notas intensas de frutas vermelhas frescas, flores e, em alguns casos, toques sutis de especiarias.
Na boca, são elegantes, com taninos delicados e textura sedosa. É um cru muito associado a ocasiões especiais e harmoniza bem com pratos leves, aves e queijos macios. Embora seja agradável jovem, algumas versões podem evoluir bem por alguns anos.
2. Juliénas
É um dos crus mais estruturados. Seus solos variados, que incluem granito, argila e xisto, contribuem para vinhos mais densos e expressivos.
No perfil aromático, aparecem frutas vermelhas e negras maduras, além de notas de especiarias e, às vezes, um leve toque terroso. Em boca, apresenta mais corpo e taninos perceptíveis, mantendo o frescor característico da gamay. É um cru que combina bem com carnes brancas, pratos mais elaborados e culinária regional francesa, incluindo clássicos como coq au vin e cassoulet.
3. Chénas
É o menor dos crus em extensão, mas entrega vinhos de grande personalidade. É conhecido por produzir alguns dos Beaujolais mais concentrados e estruturados.
Os vinhos de Chénas costumam ter aromas mais profundos, com frutas vermelhas maduras, notas florais mais discretas e nuances amadeiradas quando passam por barrica. Em boca, são firmes, com boa estrutura e potencial de guarda. É um cru indicado para quem busca um Beaujolais menos óbvio e mais gastronômico.
4. Moulin-à-Vent
É frequentemente citado como o cru mais potente e longevo de Beaujolais. Seu nome vem de um antigo moinho de vento que marca a paisagem da região.
Os solos ricos em manganês contribuem para vinhos mais robustos, com taninos mais presentes e grande profundidade aromática. É comum encontrar notas de frutas pretas escuras, flores secas, especiarias e, com o tempo, nuances terrosas e de evolução.
Diferente do estereótipo de vinho para consumo rápido, Moulin-à-Vent pode envelhecer por dez anos ou mais, aproximando-se, em estilo, de alguns tintos da Borgonha.

5. Fleurie
É conhecido como o cru mais delicado e perfumado. Seu nome já antecipa o perfil: vinhos florais, elegantes e muito aromáticos.
Os aromas lembram flores frescas, frutas frescas, framboesa, morango e cereja. Em boca, são suaves, com textura aveludada e taninos quase imperceptíveis. É um vinho que agrada tanto iniciantes quanto apreciadores experientes, funcionando muito bem com pratos pouco picantes leves, culinária asiática suave e refeições ao ar livre.
6. Chiroubles
Localizado em altitudes mais elevadas, Chiroubles produz alguns dos vinhos mais frescos e vibrantes de Beaujolais. A altitude contribui para maior acidez e perfil mais leve.
Os vinhos de Chiroubles são marcados por frutas vermelhas frescas, notas florais e sensação de leveza em boca. São ideais para consumo jovem e funcionam muito bem como vinhos de verão, inclusive levemente resfriados.
7. Morgon
Morgon é um dos crus mais reconhecidos por sua profundidade e capacidade de evolução. Seus vinhos são frequentemente descritos como mais “sérios” dentro do universo Beaujolais.
Aromas de frutas maduras, notas terrosas e toques minerais são comuns. Em boca, Morgon apresenta estrutura, volume e persistência. Com o tempo, pode desenvolver características que lembram frutas cozidas e especiarias, fenômeno conhecido como “morgonner”, muito valorizado pelos apreciadores.
8. Régnié
Régnié é o mais jovem dos crus, reconhecido oficialmente apenas em 1988. Apesar disso, rapidamente conquistou espaço por seu estilo equilibrado e acessível.
Os vinhos de Régnié combinam fruta expressiva, frescor e boa estrutura, sem perder a leveza típica da região. São versáteis à mesa e agradam quem busca um meio-termo entre vinhos mais leves e crus mais estruturados.
9. Côte de Brouilly
Côte de Brouilly se localiza nas encostas do Monte Brouilly, com solos predominantemente vulcânicos e ricos em minerais. Essa composição se reflete diretamente no perfil do vinho.
Os vinhos desse cru apresentam mineralidade evidente, boa acidez e estrutura equilibrada. Aromas de frutas vermelhas se misturam a notas minerais e, em alguns casos, florais. É um cru que combina frescor com profundidade, funcionando bem tanto jovem quanto após alguns anos de guarda.
10. Brouilly
É o maior dos crus e um dos mais acessíveis em estilo. Seus vinhos são frutados, expressivos e muito representativos da identidade de Beaujolais.
Com aromas de frutas vermelhas frescas e perfil leve a médio, Brouilly é fácil de gostar e fácil de harmonizar. É um excelente ponto de partida para quem quer conhecer os crus e entender como o terroir influencia a gamay.
Características sensoriais do vinho Beaujolais
As características sensoriais refletem a combinação entre a uva gamay, o clima da região e as técnicas de vinificação utilizadas. De modo geral, os vinhos apresentam perfil aromático intenso e fácil de identificar, com destaque para notas de morango, framboesa e cereja fresca. Essa expressão frutada é especialmente marcante nos exemplares mais jovens, que priorizam frescor e vivacidade.
Em boca, o Beaujolais costuma ter corpo leve a médio. A acidez é naturalmente elevada e traz uma sensação refrescante, que torna o vinho fácil de beber e muito versátil à mesa. Os taninos são baixos e bem integrados, resultado da casca fina da gamay, o que contribui para uma experiência suave e equilibrada.
Nos crus de Beaujolais, o perfil sensorial ganha maior complexidade. Além da fruta vermelha, surgem aromas florais, notas minerais e toques especiados, influenciados principalmente pelos solos graníticos do norte da região. Com algum tempo de garrafa, esses vinhos podem evoluir para nuances terrosas e de fruta em compota, mantendo sempre o frescor como fio condutor do estilo.

A grande maioria dos vinhos da região é feito com a uva Gamay.
Como harmonizar vinhos Beaujolais?
A versatilidade é um dos grandes trunfos do Beaujolais. Ele funciona muito bem em diversas situações.
Algumas sugestões de harmonização:
- Tábuas de frios e queijos leves
- Aves assadas ou grelhadas
- Massas com molhos leves
- Charcutaria
O Beaujolais Nouveau vai bem com petiscos, croque monsieur e encontros informais. Já os crus pedem pratos mais elaborados, mas sem excesso de gordura.

Moulin-à-Vent são crus com taninos presentes.
O vinho Beaujolais é uma porta de entrada para o mundo dos vinhos franceses, mas também um território rico para quem já aprecia rótulos com identidade. Da leveza do Beaujolais Nouveau à profundidade dos Crus, a região oferece opções para diferentes paladares, ocasiões e níveis de conhecimento.
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Flávia
Sommelier internacional pela FISAR/UCS, pós-graduada em Marketing e Negócios do Vinho pela ESPM. Há 10 anos atuando no mercado e através de diversos canais de mídia especializados no mundo do vinho. Propago conhecimento para enófilos e amantes da bebida. Falar sobre vinhos é um prazer!



