Regiões vinícolas da Espanha: guia completo para amantes de vinho
Falar sobre regiões vinícolas da Espanha é entrar em um dos universos mais ricos e diversos do mundo do vinho. O país reúne tradição milenar, clima variado, solos contrastantes e uma impressionante variedade de uvas nativas.
Tudo isso se reflete em estilos muito diferentes de vinhos espanhóis, que vão dos tintos potentes aos brancos frescos, passando por espumantes e fortificados reconhecidos internacionalmente.
Hoje, a Espanha conta com mais de 70 denominações de origem oficialmente reconhecidas. Cada uma expressa um pedaço da história, da cultura e da geografia do país. Este guia foi criado para ajudar você a entender como essas regiões se organizam, quais são as principais áreas produtoras e o que esperar dos vinhos de cada região da Espanha.
Seja para escolher melhor um rótulo, planejar uma viagem enogastronômica ou simplesmente aprofundar o conhecimento, este conteúdo reúne informações atualizadas e úteis sobre as principais regiões de vinho da Espanha.
Para entender melhor essa diversidade e o que cada garrafa representa, vale também conhecer como funciona o sistema de classificação dos vinhos espanhóis.
Classificação dos vinhos espanhóis
Para organizar a variedade de estilos e origens, a Espanha adota um sistema de classificação que ajuda a identificar a procedência e os critérios de produção dos vinhos.
Denominación de Origen Protegida (D.O.P)
É a base do sistema de controle de qualidade do vinho espanhol, sendo que cada região é governada e regulada por um conselho. São mais de 90 D.O.Ps (Denominações Protegidas) subdivididas em Denominación de Origen Calificada (D.O.Ca.), Denominación de Origen (D.O.), Vinos de Pago (V.P.) e Vino de Calidad con Indicación Geográfica (V.C.).
Denominación de Origen (D.O.)
Existem mais de 60 D.Os. na Espanha, e inclui os chamados Vinos de Calidad. Para obtê-la, é necessário cumprir uma série exigente de padrões de qualidade, como utilizar castas autorizadas, ter denominados níveis de produção, assim como métodos de vinificação e regime de envelhecimento.
Denominación de Origen Calificada (D.O.Ca)
Depois de, pelo menos, uma década como denominação de origem, recebe-se a Denominación de Origen Calificada. Todos os vinhos devem ser comercializados a partir de vinícolas registradas e localizadas na área geográfica delimitada. Um rigoroso sistema de qualidade e controle de quantidade também é indispensável.
Existem duas regiões espanholas atualmente, Rioja e Priorat, sendo que os vinhos de Priorat utilizam o termo em catalão (Denominació d’Origen Qualificada (DOQ).
- Saiba mais: O que é a Denominação de Origem Controlada?
Vinos de Pago (V.P.)
Introduzida em 2003, é concedida para vinhos de qualidade totalmente elaborados e engarrafados dentro de uma propriedade específica, sendo que cada vinícola é autorizado a elaborar suas próprias regras, optar por quais uvas utilizar e quais métodos de viticultura, vinificação e envelhecimento aplicar.
Vinos de la Tierra (VdlT)
Os Vinos de la Tierra não contam com uma D.O., mas devem pertencer a uma determinada região cujas características ambientais proporcionam caráter aos rótulos, e 85% da bebida precisam vir da área de produção nomeada.
É a única classificação que pode rotular com a Indicação Geográfica Protegida (IGP), da União Europeia. Até 2019, 42 áreas geográficas espanholas podiam usar a classificação Vino de la Tierra.
Vino de Calidad con Indicación Geográfica (V.C.)
Assim como os Vinos de la Tierra, os rótulos com o selo de Vino de Calidad con Indicación Geográfica são elaborados em uma determinada região ou localidade. Contudo, é indispensável que as uvas tenham a mesma origem, assim como a produção e o envelhecimento da bebida precisam ser na mesma área. Normalmente, é encarada como um passo intermediário para a Denominación de Origen.
Vinos de Mesa
Também não pertencem a nenhuma denominação de origem. Assim como não exigem a especificação de safra, procedência ou até mesmo a variedade de uvas utilizada na produção. Mas isso não significa que não possuam qualidade, a questão é que determinados produtores apenas decidem não seguir as regras da D.O. a qual pertencem, e não submetem os vinhos à classificação.
Regiões vinícolas da Espanha
A viticultura espanhola iniciou há muito tempo, mas foi nos anos 1970 que surgiram as primeiras regulamentações e proteções ao setor. Com o passar das décadas, as técnicas tradicionais foram dividindo espaço com as modernas.
Além disso, a variedade e a qualidade das castas se transformaram e começaram a ser adequadas às condições climáticas de cada uma das regiões vinícolas da Espanha. Com solos, processos e uvas distintas, essas áreas delimitadas são as responsáveis por dar ao país o título de terceiro maior produtor de vinhos no mundo. E é sobre elas que vamos falar a seguir.
Alto Ebro
Alto Ebro é uma das áreas mais conhecidas e prestigiadas quando o assunto são os vinhos da Espanha. A região é atravessada pelo Rio Ebro e abriga denominações históricas, com destaque absoluto para Rioja.
Rioja D.O.Ca.
Rioja é, sem dúvida, o nome mais famoso quando se fala em vinho na Espanha. Foi a primeira região espanhola a receber o status de Denominación de Origen Calificada (D.O.Ca.), um reconhecimento reservado a áreas com padrão de qualidade consistente ao longo do tempo.
Os vinhos de Rioja são conhecidos pela elegância, pelo equilíbrio e pelo uso criterioso do envelhecimento em barrica. A casta tempranillo domina os tintos, mas garnacha e as castas autoctones, mazuelo e graciano também têm um papel importante.
A macrorregião é subdivida em três zonas distintas de produção.
1. Rioja Oriental (antiga Rioja Baja)
Tem clima mais continental, assim como verões quentes e invernos rigorosos. Os solos são argilosos e há pouca incidência de chuva, resultando em rótulos coloridos, com maior teor alcoólico, baixa acidez e menor potencial de guarda.
2. Rioja Alta
Com clima mais fresco e influência atlântica, Rioja Alta é associada a vinhos mais elegantes e longevos. Aqui, a tempranillo expressa acidez equilibrada, grande capacidade de envelhecimento e taninos expressivos, conhecidos como tanino “lixa”, que se percebe na parte superior da língua, deixando-a levemente áspera. Essa característica é uma marca da região do país.
3. Rioja Alavesa
Situada a oeste da cidade de Logroño, às margens do norte do Rio Ebro, a região apresenta solo calcário-arenoso. As temperaturas não são extremas, mas o clima é um pouco mais frio que em outras áreas, resultando em vinhos aromáticos, com acidez mais pronunciada.

As três zonas importantes da Rioja D.O.Ca: Rioja Alavesa, Rioja Alta e Rioja Oriental (antiga Rioja Baja).
Entre os principais marcos da viticultura de Rioja está a criação do Conselho Real de Colhedores que, em 1797, teve como propósito promover o cultivo de videiras, elevando a qualidade dos vinhos e facilitando o comércio nos mercados do norte, construindo e melhorando estradas e pontes a fim de unir outras cidades vinícolas na Espanha à região. O setor ganhou ainda mais importância no século 19, com a construção das estradas de ferro.
De 1970 para frente, o processo de “descanso” das bebidas na região mudou. Elas passaram a ficar mais tempo na maceração, com a substituição do carvalho americano pelo francês.
A D.O.Ca. foi introduzida em abril de 1991, tornando Rioja a primeira região espanhola a receber esse status.
As principais uvas cultivadas são as tintas, sendo que o cultivo de tempranillo se dá bem nas regiões do oeste, que são mais frescas. Porém, também há plantações de mazuelo e de graciano que colaboram com os cortes. Quanto às castas brancas, a amplamente cultivada é a viura.

San Vicente de la Sonsierra, La Rioja, Espanha. Foto: Alberto Loyo.
Navarra
Próxima a Rioja, outra comunidade autônoma da Espanha popular pela produção de vinhos é Navarra, que faz fronteira ao norte com a França e também é atravessada pelo Caminho de Santiago.
A região produz vinhos desde a época romana, e os rótulos são oriundos de uma variedade climática que, ao depender da localidade, transita entre o Atlântico, continental e até mesmo o mediterrâneo. Na cordilheira dos Pireneus, é possível se encantar com o clima montanhês, enquanto ao sul de Navarra, as vinhas crescem em um ambiente quase desértico.
As castas mais populares são garnacha e tempranillo. Contudo, encontram-se ainda vinhedos das tintas graciano e mazuelo, garnacha branca, moscatel de grão pequeno — responsável pelos vinhos de sobremesa —, viura e malvasia, as quatro últimas propícias aos vinhos brancos.
A produção teve outras uvas incorporadas ao longo das décadas, como pinot noir, cabernet sauvignon, merlot, syrah, chardonnay e sauvignon blanc.
Cariñena
Menos conhecidas fora da Espanha, a região de Cariñena vem ganhando espaço entre os apreciadores de vinhos espanhóis, especialmente pelo bom equilíbrio entre qualidade e preço. A denominação aposta em vinhas antigas cultivadas em altitude, o que favorece vinhos concentrados, com boa acidez e perfil expressivo.
Cariñena D.O. é a denominação de origem mais antiga da região de Aragón e dá nome a uma das castas tradicionais da Espanha, a uva cariñena (conhecida como carignan em outros países).
A diversidade de terroirs é um dos destaques da região. Ao Norte, os vinhedos recebem influência dos Pireneus, com maior umidade e solos calcários. Ao Sul, o clima é mais seco e quente, e o solo apresenta uma camada arenosa sobre pedra calcária. Essas diferenças contribuem para vinhos com estilos distintos, que combinam estrutura, intensidade aromática e personalidade própria.

Campos de vinhedos ao pôr do sol na Cariñena, Aragón, na Espanha.
A região também tem permissão para fabricar o espumante Cava, e tem uma denominação de Vino de Pago. No caso de Aragón, o “Pago de Aylés”, uma classificação para vinhos espanhóis aplicada a vinhedos ou propriedades vinícolas individuais.
Catalunha
A Catalunha D.O. é importantíssima para o sucesso da Espanha no mercado vitivinicultor, pois é de lá que saíram os famosos espumantes Cava, nos quais se utiliza o método de segunda fermentação na garrafa e a classificação varia conforme o nível de açúcar (extra-brut, brut, extra-seco, seco, semi-seco e dulce). Ainda que não seja mais uma exclusividade da Catalunha, 85% das áreas produtoras pertencem à região.
Além da Cava, há oito D.Os.: Montsant, Empordá-Costa Brava, Conca de Barberà, Priorat, Alella, Penedès, Pla de Bages, Tarragona e Terra Alta.
Dentro desse contexto, a Penedès D.O., ao sudoeste de Barcelona, chama atenção por ter três zonas climáticas diferentes. A mais quente fica na planície costeira. Já no interior dos vales, o ar é mais fresco, ainda que moderadamente quente. Por fim, mais acima das colinas, local em que as videiras costumam ser cultivadas em até 800 metros acima do nível do mar, o clima é moderado.
Por lá, é possível observar plantações de variedades internacionais, como chardonnay, sauvignon blanc e gewürztraminer. As tintas merlot, cabernet sauvignon, pinot noir e tempranillo são mais comuns.
Um fato curioso da Catalunha são os nomes diferentes que dão para as uvas. A Tempranillo, por exemplo, é conhecida como tinta del país; vid arand, é denominada Ull de llebre; a carignan, ou cariñena é conhecida por samsó; e a grenache, ou garnacha, pode ser denominada aragón, lladoner, roussillon, mas especialmente de garnatxa. Esses nomes aparecem com frequência nos rótulos locais e ajudam a entender melhor a origem e o estilo dos vinhos catalães.
Combinando tradição, inovação e diversidade, a Catalunha se consolida como uma das regiões mais completas da Espanha para quem deseja explorar diferentes estilos de vinhos, do espumante aos tintos intensos e aos brancos aromáticos.

Vinícola da região da Cataluña, na Espanha. Foto: Richard Semik.
Priorat
O Priorat é um exemplo claro de como uma pequena região produtora pode conquistar grande reconhecimento no cenário dos vinhos espanhóis. Localizada no interior da Catalunha, essa denominação se destaca pela produção limitada e pelo foco em vinhos de altíssimo nível, o que explica por que muitos de seus rótulos estão entre os mais valorizados da Espanha.
Os vinhos de Priorat são elaborados principalmente a partir de castas de maturação tardia, como a garnacha (garnatxa) e a cariñena (samsó), muitas vezes provenientes de vinhas antigas. As condições naturais da região têm influência direta no estilo dos vinhos: dias quentes, noites frias, encostas íngremes e os poucos nutrientes do solo tornam o cultivo desafiador e prolongam o ciclo de maturação das uvas. Como resultado, a colheita costuma ser demorada e os vinhos apresentam maior concentração e complexidade.
Outro elemento marcante do Priorat é o solo conhecido como llicorella, formado por ardósia fragmentada. Esse tipo de solo favorece a drenagem e obriga as raízes das videiras a se aprofundarem, contribuindo para vinhos intensos, estruturados e com identidade muito própria.
De modo geral, os tintos de Priorat exibem cor profunda, alto nível de taninos e aromas de frutas pretas maduras, acompanhados por notas de ervas secas, frutas em compota e especiarias doces. São vinhos potentes, gastronômicos e com boa capacidade de envelhecimento. Os brancos e rosés existem, mas são raros e produzidos em volumes bastante limitados.
Apesar da produção pequena, o Priorat ocupa hoje um lugar de destaque entre as regiões mais prestigiadas da Espanha, sendo uma escolha frequente de quem busca vinhos intensos, expressivos e com forte ligação com o terroir.
Vale do Duero
Por muitos anos, Toro D.O.Ca., uma das regiões que compõem o Vale do Duero, foi conhecida pela produção de exemplares mais rústicos e menos valorizados. Hoje, tornou-se uma região-chave para o sucesso dos vinhos da Espanha. Situada na cidade de mesmo nome, desde a Idade Média há atividade vitivinicultura no local.
A uva mais produzida é a tempranillo, mas um pouco diferente da tradicional, ao qual chamam de “local” ou tinta de toro. O solo da região é de argila vermelha, e seus vinhedos encontram-se entre 600 metros e 700 metros acima do nível do mar. A área é bastante montanhosa e apresenta clima perfeito para o cultivo das frutas, que resultam em vinhos estruturados, potentes e concentrados.
Além de Toro, a Ribera del Duero e Rueda, merecem menção quando o assunto são os vinhos do Vale do Duero.
A Ribera del Duero D.O. apresenta altitudes elevadas, alcançando 900 metros acima do nível do mar. Com invernos rigorosos e verões árduos, o amadurecimento das uvas é lento. Essa característica climática faz com que os rótulos apresentem aroma intenso e boa estrutura.
O cultivo da tinta tempranillo é evidente, juntamente com a cabernet sauvignon, garnacha, merlot e malbec.
É uma das poucas áreas vitivinícolas espanholas que utilizam os termos Crianza, Reserva e Gran Reserva impressos nos rótulos das garrafas, um indicativo sobre o amadurecimento dos vinhos.

Cachos de uvas vermelhas crescendo na região de Toro, província de Zamora, Espanha. Foto: Dolores Giraldez Alonso.
Entre Toro e Ribera del Duero está a Rueda D.O.. Ainda que seja permitida a produção de tintos e rosés, a região é notória graças aos vinhos brancos produzidos a partir da elegância e do frescor da uva verdejo.
De verões secos e ligeiros e invernos intensos tem solo pedregoso que é propício ao cultivo das uvas brancas. Viura, palomino e sauvignon blanc se desenvolvem bem no território, assim como as tintas tempranillo, cabernet sauvignon, garnacha e merlot.
O Vale do Duero é sinônimo de vinhos robustos e expressivos.
Noroeste
O noroeste da Espanha se diferencia do restante do país pela forte influência do Oceano Atlântico. A região apresenta clima mais fresco e úmido, com maior incidência de chuvas e temperaturas moderadas ao longo do ano. Esse conjunto favorece a produção de vinhos com acidez elevada, frescor marcante e perfil mais leve, especialmente os brancos.
É nessa zona que estão algumas das regiões mais importantes para os vinhos brancos espanhóis, além de denominações que vêm ganhando destaque pela elegância de seus tintos. A combinação entre clima atlântico, relevo montanhoso e castas locais resulta em vinhos bastante distintos dos estilos mais potentes do interior da Espanha.
Rías Baixas D.O.
Localizada na costa do Atlântico, a Rías Baixas D.O é hoje uma das regiões mais reconhecidas da Espanha quando o assunto são vinhos brancos frescos e aromáticos, especialmente os elaborados com a uva Albariño.
O clima da região é moderado e úmido, o que influencia diretamente a condução das videiras. Para melhorar a circulação de ar e reduzir o risco de doenças como míldio, oídio e podridão, é comum o uso do sistema de pérgolas, uma característica marcante da paisagem local.
Os vinhos de Albariño produzidos em Rías Baixas são, em geral, refrescantes e sem passagem por madeira, valorizando a acidez natural da casta e os aromas de frutas de caroço maduras, como pêssego e damasco, além de notas cítricas e florais. Em alguns casos, podem receber um leve toque de madeira de carvalho ou passar por bâtonnage, o que acrescenta textura e complexidade.
A produção de vinhos tintos é permitida na denominação, mas tem pouca relevância frente ao protagonismo absoluto dos brancos.

Vinhedos da região de Rias Baixas, na Galiza, Espanha.
Bierzo D.O.
Já na Bierzo D.O., os vinhos tintos ganham destaque. A região está situada entre as montanhas que marcam a fronteira entre a Galiza e a Meseta Central, em uma área de transição climática. O clima é moderado, com influência de resfriamento vinda do Atlântico, o que contribui para vinhos equilibrados e expressivos.
A grande estrela da região é a uva Mencía, responsável por tintos de perfil elegante, com acidez naturalmente alta, taninos finos, paladar aveludado e aromas de frutas vermelhas, flores e notas minerais. Muitos desses vinhos vêm de vinhas antigas, o que acrescenta complexidade e profundidade ao conjunto.
Os vinhos brancos da Bierzo são elaborados principalmente com as castas Godello e Doña Blanca, resultando em rótulos frescos, aromáticos e gastronômicos. Já os rosés devem conter, no mínimo, 50% de uva Mencía, preservando o caráter da variedade.
Bierzo tem se consolidado como uma das regiões mais interessantes do noroeste espanhol, especialmente para quem busca tintos mais leves, elegantes e com forte identidade de terroir.
Levante
O Levante espanhol inclui regiões como Jumilla, Yecla e Valencia. O clima quente e seco favorece uvas resistentes, como a monastrell.
Valência é a terceira cidade mais populosa da Espanha. O solo da Valência D.O. é permeável e composto por pedra calcária. Juntamente com o clima mediterrâneo dominado por fortes chuvas, um inverno rigoroso e um calor extremo, diversas castas, como monastrell, garnacha, bobal, tempranillo, forcallat, mandó, cabernet sauvignon, merlot, syrah, pinot noir, airén, malvasia, macabeo, pedro ximenez, tortosina, verdil, merseguera, entre outras, são cultivadas. É possível encontrar desde brancos perfumados, vinhos tintos jovens e rosés frutados.
A casta autoctone merseguera, uma casta local, é quem domina as plantações de uvas brancas, mas também há plantações significativas de moscatel de Alexandria, que origina o moscatel de valencia — um vinho doce fortificado.

Colheita da casta bobal em Utiel-Requena, na Espanha.
Próxima a Valência, está também a Denominação de Origem Alicante (Alicante D.O.), uma grande exportadora da bebida na época do Renascimento, que influenciou o mundo dos vinhos durante o século 20. Após um declínio, a região tem ganhado evidência novamente graças ao aperfeiçoamento dos produtores locais. Em 1957, tornou-se uma D.O.Ca. (Denominación de Origen Calificada). O cultivo de uvas brancas por lá, como chardonnay, muscat of alexandria e sauvignon blanc, é notável.
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Já a região vitivinícola de Murcia, no sudoeste da Espanha, conta com três zonas situadas em uma área plana entre montanhas. São elas Jumilla, Yecla e Bullas, que produzem vinhos com D.O. (denominação de origem). Enquanto Abanilla e Campo de Cartagena são responsáveis pelos Vinos de la Tierra, que também estão entre os melhores vinhos espanhóis!
Em Jumilla e Yecla D.O., apesar da área ter um clima muito seco, o solo tem boa retenção hídrica, assim como uma permeabilidade que possibilita a subsistência das videiras nos tempos de seca. Os resultados são tintos jovens de cor intensa, muito corpo e estrutura, aromas frutados e taninos finos. Dos brancos, espere um alto potencial aromático, frescor e um equilíbrio perfeito!
As castas tintas mais cultivadas são syrah, petit verdot, merlot e tempranillo, ao passo que as brancas são macabeo, chardonnay, sauvignon blanc, airen, malvasia e verdejo.
Já ao noroeste da província, os vinhedos situados nos municípios de Cehegín, Bullas, Pliego, Mula, Ricote, parte de Caravaca De la Cruz, Moratalla, Calasparra e Lorca fazem parte da Bullas D.O., cujas plantações são dominadas pelas uvas monastrell, tempranillo, macabeo, cabernet sauvignon, merlot, garnacha, airen, moscatel, chardonnay e petit verdo.

Vinhedos em Jumilla, uma das províncias de Murcia.
Castilla-La Mancha/Castilla y León
A comunidade de Castilla-La Mancha faz fronteira com Castilla y León, Madrid, Aragão, Valência, Múrcia, Andaluzia e Estremadura, sendo composta pelas províncias de Toledo capital da região, Cidade Real, Cuenca, Guadalajara e Albacete. É a maior D.O. do mundo em plantação, sendo uma das maiores regiões produtoras do país.
No total, a região conta com nove D.Os., além de produzir mais de 25 variedades de uvas, sendo que as brancas ocupam a maior parte do território. O protagonismo fica por conta da airén, enquanto as tintas bobal, monastrell e tempranillo (conhecida na região como cencibel) estão à frente das tintas.
Algumas sub-regiões consideráveis são La Mancha, Valdepenãs, Almansa, Manchuela, Méntrida, Uclés, Mondéjar e Ribera del Júcar.
Foi em La Mancha D.O. que a produção de Vinos de Pago começou, vinhos que têm se tornado cada vez mais reconhecidos pela sua alta qualidade. Além disso, a região tem recebido investimentos tecnológicos que possibilitam o potencial mercadológico da área na exportação de vinhos tintos e brancos.
Marcada por extremos em relação às temperaturas, que podem chegar a 40°C no verão e -20°C no inverno, a região é propícia ao desenvolvimento de uvas emblemáticas, como a tempranillo. Ao passo que o principal tipo de vinho elaborado por lá é o tinto. A respeito dos vinhos brancos, as castas mais utilizadas são a viura e a verdejo, ainda que em uma escala menor.
Curiosidade: O romancista castelhano Miguel de Cervantes (1547-1616) nasceu em um município pertencente à província de Madri. Contudo, seu personagem mais famoso, Dom Quixote, leva o nome da região que nasceu, La Mancha!
Valedepeñas D.O., ao sul de La Mancha, possui clima similar, mas reputação superior. Produz vinhos de corte e varietais a partir da tempranillo. Os rótulos podem ser frutados ou mais concentrados. Normalmente, são envelhecidos em madeira de carvalho.
Já a região de Castilla y León engloba nove cidades: Ávila, Burgos, Leon, Palência, Salamanca, Segovia, Soria, Zamora e Valladolid.
São 13 D.O.Ps (Denominação de Origem Protegida), uma I.G.P. (garantia de procedência) e uma vinos de la tierra de Castilla y León, a indicação geográfica espanhola Vinos de La Tierra para rótulos da região autônoma de Castilla y León adquirida em 2005.

Vinhedos durante o inverno em uma vinícola em Segóvia.
Regiões menos conhecidas, mas que merecem destaque
Além das regiões mais famosas, a Espanha abriga áreas menos conhecidas que produzem vinhos cheios de identidade e caráter. Esses destinos revelam uvas, estilos e terroirs diferentes, ideais para quem gosta de descobrir novos rótulos e ampliar o repertório sobre os vinhos espanhóis.
Andaluzia
A Andaluzia é o berço dos vinhos fortificados mais famosos da Espanha. Jerez, Montilla-Moriles e Málaga produzem vinhos únicos, com sistemas de envelhecimento tradicionais e estilos que vão do seco ao intensamente doce.
Ilhas Canárias
As Ilhas Canárias chamam atenção pelos solos vulcânicos e pelas vinhas de pé-franco. Os vinhos têm identidade própria, marcada por mineralidade, frescor e variedades pouco comuns no continente europeu.

A curiosidade do solo das Ilhas Canárias é a origem vulcânica.
Ilhas Baleares
Mallorca e Menorca produzem vinhos que combinam tradição mediterrânea e técnicas modernas. As uvas locais dividem espaço com castas internacionais, criando rótulos equilibrados e gastronômicos.
Somontano
Localizada aos pés dos Pireneus, Somontano é conhecida pela diversidade de uvas e pelo estilo moderno. Os vinhos costumam ser aromáticos, acessíveis e bem estruturados.
Extremadura
Ainda pouco explorada fora da Espanha, Extremadura vem se destacando pela recuperação de vinhas antigas e pela produção de vinhos autênticos, com foco no terroir.
Como funciona o envelhecimento dos vinhos espanhóis?
O envelhecimento é um dos pontos mais característicos dos vinhos espanhóis, especialmente nos tintos.
As categorias mais comuns são:
- Joven: sem passagem por madeira ou com curto contato.
- Crianza: mínimo de envelhecimento em barrica e garrafa.
- Reserva: mais tempo de maturação, com maior complexidade.
- Gran Reserva: longos períodos de envelhecimento, geralmente reservados para safras excepcionais.
Essas indicações ajudam o consumidor a entender o estilo do vinho antes mesmo de abrir a garrafa.
| Designação | Vinhos tintos | Vinhos brancos e vinhos rosés | ||
| Envelhecimento mínimo total (meses) | Tempo mínimo em barril (meses) | Envelhecimento mínimo total (meses) | Tempo mínimo em barril (meses) | |
| Joven | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Crianza | 24 | 6 | 18 | 6 |
| Reserva | 36 | 12 | 24 | 6 |
| Gran Reserva | 30 | 18 | 48 | 6 |
Explorar as regiões vinícolas da Espanha é descobrir um país que consegue unir tradição e inovação como poucos no mundo do vinho. De Rioja às Ilhas Canárias, cada região da Espanha oferece estilos únicos, influenciados por clima, solo e cultura local.
Conhecer essas regiões amplia a experiência de quem aprecia vinhos espanhóis e facilita escolhas mais alinhadas ao gosto pessoal. Seja para começar ou para aprofundar o conhecimento, a Espanha sempre tem algo novo a oferecer em cada taça.
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Flávia
Sommelier internacional pela FISAR/UCS, pós-graduada em Marketing e Negócios do Vinho pela ESPM. Há 10 anos atuando no mercado e através de diversos canais de mídia especializados no mundo do vinho. Propago conhecimento para enófilos e amantes da bebida. Falar sobre vinhos é um prazer!



